Segue aí a primeira pintura digital que fiz no Photoshop em 2015 (2014? talvez...). Foi feita com muito carinho, neurose e tempo...bota tempo. É um estudo de uma foto de época e, embora veja um tanto de coisas pra melhorar, gostei bastante do resultado. Francamente ainda me surpreendo da mão ter saído tão "fofinha" numa primeira experiência...Espero que agrade!
quarta-feira, 16 de agosto de 2017
sábado, 14 de janeiro de 2017
Quanto
Quantos?
A pergunta era a pedra fundamental de seus dias. A decisão
era tomada pela manhã? Não. Era tomada ao acordar, fosse a hora que fosse.
Abria os olhos, olhava o vidro de tranqüilizantes e se perguntava:
Quantos?
Queria saber se chegaria um dia em que a resposta seria
nenhum. Não alimentava esperanças.
Levantou-se do meio de umas dez pessoas emboladas no chão de
um quarto.
Quantos?
Um.
Todos dormiam sossegados, o sol ainda não havia aparecido.
Ficou encarando o vidro de remédios, as letras do nome dançando em sua mente.
Lembrou-se de Andréa. Andréa dançando, Andréa lendo, só Andréa. Ela era de um
lugar diferente que ele - na mesma cidade, na mesma faixa financeira, mas ela
era normal, limpa. Ele era um viciado em tranqüilizantes que levava a vida de
bicos e trambiques, de aviões e serviços porcos. Andréa era o ideal
inalcançável que o mantinha sobre as pernas.
. . .
‘O que você vai fazer hoje?”
“Não sei, estou cansada, com preguiça.”
“Eu também estou cansada e vou sair. Vem comigo.”
“Não sei...”
“Vem logo, Andréa porra.”
“Tá bom, mas é Sra Andréa Porra Silveira pra você.”
. . .
O sol foi nascendo e subindo, devagar. Quando sentiu a luz
nos olhos, deu-se conta de que estava consciente.
Deveria fazer a pergunta?
Sentado, foi vendo todo mudo acordar com a luz do sol. Uma
garota passou perto dele, olhou um pouco com os olhos apertados e lhe roubou um
beijo.
“Você acorda cedo pra caralho.”
Um cara procurava o dono da casa, infrutiferamente. Alguém
decidiu levar alguma coisa da casa para sacanear. A casa foi devastada.
. . .
“Desfaz essa cara e vem dançar.”
Andréa riu e acompanhou a amiga. Dançou com vontade,
precisava gastar energia, estava cansada de descansar, o problema era a
solução. Já começava a sentir o efeito da bebida: um rubor macio subir-lhe ao
rosto, sentia vontade de espreguiçar como uma gata. Pensava em um monte de
coisas. Pensava em provas, trabalho, estudo. Queria beber mais.
“Vem pro balcão!”—gritando para a amiga.
. . .
Levantou-se, foi para a cozinha. A menina do beijo se
apoiava na pia. Alice.
“O que houve?”
Ela suspirou, olhos fechados. Vomitou na pia.
“Nada não.”
Ela começou a rir e ele a acompanhou enquanto limpava os
cantos de sua boca com um guardanapo.
“O que você bebeu afinal? Você não é de vomitar.”
“O que eu não bebi... Me dá um beijo?”
Se beijaram longamente. Ele a segurou pelas costas, para
evitar que escorregasse para o piso. Olhou ela nos olhos, ambos sérios, ela o
olhava com ternura. Beijou-o de leve nos lábios.
“Gostinho de pâncreas?”
Ele preparou um café, só estavam os dois na casa do cara
agora. Quem era o cara mesmo?
Vai saber.
“Você vai mesmo tentar o curso de música?”
Ele se aquietou, transtornado com a pergunta. Ia tentar o
curso de música?
“Vai? Eu tava pensando em entrar com você: canto. O que você
acha?”
Manteve os olhos no café, sentia uma dor de cabeça vindo lá
longe, bem no fundo. Tomou um comprimido para enxaqueca.
“Você e essas merdas de comprimidos... Fala comigo.”
“Não sei. Não sei.”
Ela olhou ele nos olhos, balançou a cabeça devagar e sorriu.
“Eu te amo.”
Ele a olhou sem saber o que dizer. A amaria também? E
Andréa?
Se nem conhecia Andréa direito...ela pairava em sua mente,
como um ideal, uma cenoura na ponta de uma vara.
Sorriu.
“Eu também te amo.”
Seus lábios se tocaram, a língua de Alice abraçando a sua e
lhe trazendo uma bem vinda e conhecida onda de calor. Durante o beijo, as mãos
dela passaram pelo vidro de comprimidos no bolso de sua jaqueta, fazendo um som
de paredes desmoronando.
. . .
“Eu já estou bêbada?”
Renata olhou a amiga com ares de engraçada.
“Se está perguntando isso: naturalmente.”
Andréa olhou em volta, curtindo enquanto as coisas em seu redor
vinham lentamente no encalço de sua visão. Olhou o rosto de Renata, que olhava
em volta, fixou-se ali por um instante. Renata, notando, olhou de volta.
“Você beijaria o Jorge?”
Renata começou um sorriso.
“Sim.”
Andréa viu que a pergunta havia sido tola - Renata, em
geral, beijaria qualquer um.
“Não! Você namoraria ele, sei lá, daria pra ele?”
“Nem um nem outro. Ele é depressivo e viciado, alguém vai
agüentar isso?”
Andréa pareceu se abater um pouco, apoiou a cabeça nos
braços, sobre o balcão. Seus cabelos louros tocavam o molhado do copo pela
metade.
“A Alice agüenta...”
“A Alice é Alcoólatra e também é depressiva, eles foram
feitos um para o outro. Mas por que isso?”
“Nada não.”
. . .
Acabaram tomando um banho na casa do cara, a água quente fez
com que se sentisse melhor, mais vivo. Alice insistia em conversar sobre a
escola de música.
“É pública.”
“É boa.”
“Conta como superior, dá pra arranjar emprego na orquestra.”
“Não sei.”— disse a tarde inteira, enquanto andavam pela rua
olhando discos em lojas escusas.
“Mas você toca piano muito bem, você ia poder montar sua
banda sabendo teoria.”
“Na banda eu gosto de tocar guitarra.”
“Você é bom no violão também.”
“O que você quer ouvir afinal?”
Alice pensou um instante - “casa comigo”.
Não. Uma hora ou outra ele ia perceber que ela o amava mesmo.
“’Eu vou fazer se isso te faz feliz’, é isso que eu quero
ouvir.”
“Te faz feliz?”
“Muito!”—disse, manhosa.
“Então eu te faço feliz.”
Jorge começava a sentir os olhos doendo por causa da luz do
sol, esperou a namorada olhar para outro lado e pôs um calmante e um AAS na
boca.
Alice havia aprendido a reconhecer as caras de Jorge, sabia
quando ele ia tomar mil remédios nocivos e preferia não ver isso. Fingia que
não via, que olhava em outra direção. Uma hora ou outra ela ia saber fazer ele
parar, saber fazer ele viver.
Entraram numa lanchonete, ele pediu uma coxinha, ela uma
dose de conhaque.
. . .
“Você gosta do Jorge?”
Gostava? Só havia falado com ele umas poucas vezes e sobre
assuntos superficiais. Não sabia o que a atraía nele, achava que era o jeito
que ele olhava para ela: se sentia importante, única, certa. Sua mão escorregou
no balcão e quase bateu o queixo. No caminho de volta a sua postura original,
viu um cara acenando, indicando Renata.
“Tem um cara ali querendo coisas muuuito feias com você.”
Renata olhou, respondeu a um sorriso.
“Posso ir? Não vai ficar muito sozinha?”
“Vai.”
Andréa se ajeitou no banco, ajeitou os cabelos, esfregou os
olhos longamente.
“Um White
russian, por favor.”
Gostava desse drinque, parecia café com leite, fazia se
sentir mais limpinha. Olhou a pista de dança, viu o cara conversando com
Renata. Notou que alguém havia sentado no banco ao seu lado, olhou, era um
rapaz bonito, com cara de ser bem mais novo que ela.
“Oi, tudo bem? Eu estava te olhando faz um tempão, te achei
linda. Quer dançar?”
Olhando o cara de cima a baixo, acabou não gostando - falava
rápido demais. Odiava aquilo! Não merecia ela o tempo dele arrrrticularrrr as
palavrrras? Olhou para ele com cara de impaciente.
“Você tem algum lugar decente pra me levar e se aproveitar
da minha bebedeira? Por que se você tiver vamos agora.”
O rapaz abriu a boca sem emitir som, franziu as sobrancelhas.
“Foi o que eu pensei.”
O drinque acabou, deviam ter se passado uns bons minutos e
só agora olhava para ver se o cara tinha sumido. Viu ele falando com um outro
moço com ares de desespero e súplica. Olhou em seguida para a pista de dança e
viu Renata beijando o carinha ardentemente, a luz do ambiente dando um aspecto
mais forte a cena. Não pôde impedir um soluço de subir por sua garganta, limpou
as lágrimas dos olhos com as mãos e pediu vodca.
Por que havia vindo, se sabia que aquilo ia acontecer?
. . .
Quantos?
Um.
A primeira sensação que lhe ocorreu, antes mesmo de
reconhecer o lugar em que estava foi o cheiro de Alice. Era uma mistura de
perfume feminino com Tequila e algo só dela. Uma espécie de cheiro de mulher.
Olhou-a enquanto dormia, a pele era branquíssima e os cabelos pretíssimos. Assim,
sem as roupas de roqueira/clubber/seilá, parecia frágil, mais bonita. Ela dormia
encolhida, de lado, como que se protegendo de alguma coisa. Poderia fazer
teorias sobre essa postura enquanto o efeito do comprimido chegava, mas não.
Ficou só olhando.
Só olhando.
. . .
Acabou ficando na casa de Renata, como costumava acontecer. Acabou
dormindo na mesma cama que ela, pois não havia outra, como costumava acontecer.
Acabou passando a noite em claro, como costumava acontecer e chorou escondida
no banheiro com uma garrafinha cheia de uísque como - só às vezes - acontecia.
Alice era uma alcoólatra depressiva, digna da pena e do sarcasmo de Renata - o
que seria ela então? Sentia-se suja, errada, o que a amiga não diria, pensaria,
se soubesse o que ela sentia ao dividir aquela cama ocasional? Era uma
alcoólatra, depressiva e pervertida. Chorou a noite inteira, esvaziou a garrafinha
aos poucos, para não ter vontade de beber álcool ou qualquer outra merda. Tudo
por causa do amor. Não era tudo mesmo por causa do amor? Quando viu que já se
aproximava uma hora boa para Renata acordar, escovou os dentes para disfarçar o
hálito e deitou-se junto dela, pensando em todo tipo de coisa, menos no rosto
suave dela, dormindo com um sorriso no canto do lábio. Ficou sonhando que
aquele sorriso podia ser por ela.
Acordaram ao mesmo tempo, Renata foi fazer alguma coisa
para comerem. Era sábado de manhã e para ela isso era sagrado. Andréa juntava
todos os seus esforços para fingir não estar bêbada e sim de ressaca. Enquanto
a amiga não via tomou dois Engovs. Andréa sentou numa cadeira na cozinha e
ficou observando a amiga montar o começo de seus dias, tanto na comida quanto
na canção cantarolada devagar e nos pensamentos sempre ativos. Se flagrou
olhando as pernas de Renata - enrubesceu. A amiga a olhou por um instante.
“Onde é que estão esses olhos perdidos aí?”
Não podia ficar ali, ia chorar - chorava fácil quando bebia.
Levantou de um salto e foi ao banheiro inventar vômito, passou lá alguns
minutos e voltou pálida e abatida. Sentou de volta na cadeira.
“Entendi.” - disse Renata.
Olhou Andréa por uns instantes e falou, com voz de quem fala
com um bebê.
“Vem cá filhinha, mamãe vai te curar dessa ressaca monstro. Ô,
tadinha.”
Renata segurava a cabeça de Andréa contra o peito e
balançava devagar. Andréa andava bebendo demais. Por quê? Ela sempre fora dada
aos porres dessa vida, mas agora era tão constante, e tão diferente. Ela
parecia infeliz, comia pouco, não gostava de mais nada. Só a via sorrindo
quando estavam juntas, de resto estava emburrada ou com os olhos perdidos em
lugar nenhum. Seria o Jorge?
Andréa ouvia a voz de Renata de perto e ouvia as batidas
tranqüilas e seguras de seu coração. O único ritmo que gostava de seguir - o da
vida dela. Ficou ali, rindo baixinho, conversando enquanto o leite esquentava e
o café coava e o tempo passava.
. . .
Alice passou o fim de semana ensaiando sua voz enquanto
Jorge ensaiava seu piano. Ela tinha uma voz bonita, aguda. Depois de um tempo a
seriedade acabou e acabaram fazendo covers dos Pixies e do Elástica, as duas
únicas bandas com vozes femininas boas de que se lembraram. No sábado ficaram
em casa assistindo a filmes alugados e comendo porcarias em domicílio. No
Domingo, mais ensaios, Alice resolveu cozinhar, Jorge resolveu ajudar, saiu um
macarrão com molho e almôndegas. Comeram ao som de Tchaikovsky, Conserto para
Piano Nº2. Ao fim riram de seu refinamento.
“Toca pra eu cantar.”
Jorge olhou para ela, sorrindo, curioso.
“Tocar o quê?”
“A do
Casablanca: a fact is just a fact, a Kiss
still a Kiss..."
Jorge riu, pegou a mão da namorada, olhou seu sorriso
divertido, agradavelmente doido.
“Vai, toca! Eu deito no piano e falo ‘play that again, Sam’.
Quer dizer, eu deito no teclado.”
Os dois riram, ele levantou e se dirigiu ao teclado, começou
a música.
You must
remember this
A kiss
is still a kiss
A sigh
is still (just) a sigh
The
fundamental things apply
As time
goes by
And when
two lovers woo
They
still say: "i love you"
On that
you can rely
No
matter what the future brings
As time
goes by
Ela o olhou longamente.
“Eu te amo muito.”
“Eu também te amo muito.”
Se impressionou um pouco com a velocidade de sua resposta.
Beijaram-se longamente, ele a pegou nos braços e foram para o quarto, cantando.
. . .
Quantos?
Um.
Acordou instantes antes do despertador, ficou parado
esperando o calmante fazer efeito.
O despertador gritou às 8:30, tinham de estar na escola às
10:00 para uma entrevista. Não sacava por que tinha de fazer entrevista para se
matricular na escola, Alice achava que iam ter que fazer teste, ali na hora e
por isso haviam ensaiado tanto. Ela acordou e olhou para ele com uma cara
estranha, misto de mal-estar e dúvida.
“Tem tempo ainda, vai tomar banho que eu invento um café da
manhã.”
Ela obedeceu sem dizer nada. Só quando ela escondeu o rosto da
luz para passar do quarto pelo corredor e para o banheiro, Jorge percebeu que
ela estava de ressaca. Devia ter levantado de noite e bebido - bebido bastante,
pelo jeito. Ele, sedado, jamais perceberia. Ela poderia ter entrado em coma que
ele jamais perceberia. Um calafrio percorreu seu corpo. Por segundos imaginou
Alice morta, ele sozinho. Teve medo, lembrou-se o trecho de um livro:
"...seu Marciano, morto? seu Marciano não parece que vai morrer...".
Sua cabeça não pensava direito, teve medo de não conseguir tocar, decepcionar
Alice, teve medo de conseguir e ela não, ver ela triste, ia dizer que fosse
sozinho, ela não ligava.
Entrou no banho logo quando Alice saiu, pôde sentir seu
cheiro, que pertencia às paredes do lugar. A água quente fluiu por sobre seu
corpo artificialmente relaxado. Sentiu uma fisgada na cabeça, mastigou dois AAS
do armarinho do banheiro.
Alice sentou com um copo cheio de café e um pão com
manteiga, sua cabeça doía e sua boca estava seca. Tinha que beber um monte de
água e comer bastante antes de ir. Resolveu aquecer a voz para se sentir mais
segura, só agora notava a importância daquilo. Era segunda-feira e quase era o
primeiro dia do resto de sua vida. Já havia cinco anos que tinha deixado as
aulas de canto para entrar numa escola mais séria, uma universidade e não tinha
coragem. O receio somou-se a um conformismo e acabou se tornando apatia,
naquele dia ia mesmo tentar. Podia conseguir, sabia que cantava muito bem. Se
viu refletida na tela da TV, viu uma garota com olheiras profundas, pele gasta,
rosto derrotado, a mesma que vira no espelho do banheiro às três da manhã
enquanto se ofendia e humilhava bebendo vodca e até cachaça pura. Sentiu nojo,
desviou o olhar, tentou em vão conter as lágrimas. Enterrou a cabeça no ombro
direito e quando a levantou deu com Jorge a olhando. Teve vergonha, mas ao
mesmo tempo queria que ele a visse daquela maneira - fraca, derrotada. Queria sua
ajuda quando estivesse assim. Ele se aproximou e a abraçou, ele já estava
vestido, quanto tempo estivera chorando?
“Não fica assim.”
“Você nem sabe por que eu estou assim.” - disse entre
lágrimas, agora nada contidas.
“Não importa, só não fica assim.”
. . .
Naquele dia foram ao shopping e passaram o dia inteiro lá. Era
incrível o que se podia fazer num shopping grande - comeram, gastaram, Renata
cortou os cabelos. Andréa olhava as pessoas ao redor, notou que algumas as
olhavam - o que pensavam? Deliciou-se com a idéia.
Sentaram-se na praça de alimentação, Renata olhando
fixamente o rosto de Andréa que olhava para baixo, bebendo um refrigerante.
“O que você tem Déa?”
“Nada.” - a resposta já parecia automática, para qualquer um
que perguntava:
Nada.
“Nada uma porra. Você fica com essa cara, olhando pra lugar
nenhum, vivendo dentro da cabeça, por que isso?”
“Eu....não sei.”
Os olhos de Andréa se levantaram da mesa, Renata viu que ela
estava prestes a chorar. Andréa olhou o rosto da amiga, segurando com todas as
forças o choro que sempre vinha, em todas as horas. Nem notou que não
conseguiu.
“Você sabe sim. O que é que te atormenta assim tanto? Eu me
preocupo com você sabia? Fala, é o Jorge?”
Andréa pensou um pouco. Sim, era Jorge, ele era seu maior
problema. Em sua mente sua voz gritava. O Jorge era sim seu maior problema, já
que era com alguem como ele que lhe restaria ficar já que não era capaz de
dizer a Renata que a adorava, que estava apaixonada por ela. Já que não era
digna dela. Forçou um sorriso entre as lágrimas silenciosas.
“É, mais ou menos.”
Renata esperou umas pessoas passarem pela mesa em que
estavam, sabia que Andréa odiava discutir perto de outros.
“Como assim mais ou menos? Me explica, por favor.”
Andréa sentiu a tensão se assentar em seus ombros,
forçando-os para baixo.
“É que eu não gosto dele, mas quero me fazer gostar.”
Renata achou que sabia o que ela ia falar.
“Por que fazer gostar?”
“É que eu tenho que substituir alguém que eu não acho que
possa ter.”
Andréa já não agüentava, chorava baixo controlando-se para
ainda poder articular as palavras.
“Quem.”
Andréa não disse nada por algum tempo. Viu que ia ser a
primeira vez na vida que diria aquilo em voz alta, seria a primeira vez que até
mesmo ela ouviria as palavras:
“Eu te amo.”
Renata sentiu uma sensação estranha ao mesmo tempo que
sentiu sua face corar, tentou dizer algo, mas as palavras ficaram presas na
garganta. Os pensamentos confusos tentavam se dar sentido agora que tinham a
chave. A chave dos últimos tempos de sua vida, que, agora notava, era a vida
delas, das duas. Seus olhos marejaram enquanto observava sua amiga se encolher
e olhar para lugar nenhum - como vinha fazendo havia algum tempo; comer os
cantos dos dedos - como vinha fazendo havia algum tempo; chorar desesperada -
como já havia ouvido no meio da noite. Quantas noites havia passado em claro
pensando se devia ou não consola-la, esperando que no desespero ela dissesse o motivo
daquilo tudo. Mas ela não dizia, só a olhava, enquanto supostamente dormia.
Renata pegou as mãos da amiga bem de leve.
“Pára, suas mãos tão bonitas.”
Andréa não conseguia falar, não conseguia olhar para Renata,
sentia-se exposta, só podia fazer esperar e chorar, e chorar.
Renata olhou Andréa por uns instantes, na sua cabeça, todos
os pensamentos repetiam perguntas um para o outro.
“Vem, vamos pra casa.”
. . .
Chegaram, subiram escadas largas e entraram. Os dois estavam
visivelmente nervosos e não sabiam bem o que ia acontecer. Foram guiados até
uma sala grande que ecoava até o som de suas roupas roçando na pele. No caminho
havia bastante gente esperando, provavelmente pelo mesmo motivo. Viram que
vários traziam instrumentos e partituras e tiveram medo: era mesmo um teste. E
se tivessem que ter algo preparado? Na sala havia dois homens e uma mulher
sentados atrás de uma mesa. Uma senhora bonita e sorridente veio
cumprimenta-los em nome de todos, sua pele negra parecia brilhar com a luz do
sol que entrava por uma grande janela.
Ouviram a explicação tentando parecer naturais, detrás de
olhos fixos e maxilares travados: seria feito um teste e, como estavam em
carência de horário, foi bom que quisessem fazer o teste juntos, economizaria
algum tempo.
Quisessem? Jorge olhou para Alice levemente curioso, ela
havia marcado a hora. Alice olhou Jorge com o mesmo olhar de dúvida, só
concordou com a mulher. Sua mente, em disparada, imaginava tudo que podia
explodir na cara dos dois. Talvez ele desmaiasse, sedado por um remédio forte
engolido em segredo. Talvez ela vomitasse a bebida da madrugada na frente dos
juizes. Talvez eles subitamente percebessem que não mereciam estar ali. Ou em
qualquer lugar.
No caminho de volta, Renata tentava falar, tentava
argumentar com a voz quase sumindo, um balbucio. Falava sozinha enquanto a
amiga soluçava.
“Por que você não me contou nada?”
“Eu ia entender.”
“Calma Andréa.”
Andréa sentia mais e mais dor no peito, como se ele fosse drená-la
inteira para um buraco escuro. Não acreditava que havia realmente dito aquilo. Agora
seria ainda pior do que antes. Talvez preferisse a expectativa, preferia só
imaginar o que daria errado do que esperar que se desenrolasse diante de si.
. . .
Alice se aqueceu e obedeceu a alguns exercícios enquanto
Jorge a olhava, parecia outra pessoa: determinada, forte. Ao fim dos
exercícios, os examinadores disseram que eles podiam começar. Alice não
entendeu e olhou para Jorge, viu que ele olhava para ela, esperando qualquer
tipo de resposta.
“Qualquer coisa?” - perguntou ela, sem muita convicção.
“Sim senhorita.” - disse a mulher num tom maternal.
Os dois se olharam pensando ao mesmo tempo, Jorge notou que
precisava de um calmante desesperadamente, não podia sair.
Tocaram "As time goes by", a do Casablanca, e
passaram.
. . .
As duas entraram no apartamento. Renata trouxe um copo de
água para Andréa, enxugou suas lágrimas, a mente em parafuso. Olhava a amiga,
sem saber o que dizer. Mesmo que soubesse, as palavras se represariam em sua
garganta obstruída pela torrente de pensamentos. Não sabia o que fazer, não fazia
a menor ideia do que fazer, mas mesmo assim segrou o rosto de Andréa com as
duas mãos e a beijou. Foi um beijo rápido, desajeitado, cheio da sensação - de
ambas as partes - de que seria interrompido a qualquer momento.
Aos poucos, como o calor recuperado ao se enfiar debaixo das
cobertas num dia gelado, sentiu felicidade crescer dentro de si. As dúvidas que
acabavam de surgir calaram-se pelo momento, o medo que acabara de surgir se
escondeu longe das vistas. Restou só amor, imenso, infinito.
Andréa não acreditou, sentiu mais lagrimas escorrerem pelo
rosto, salgando o beijo nervoso que trocavam. Enfim, se agarrou àquilo como se
fosse o primeiro alimento que recebia em semanas, a primeira luz após a
solitária. Beijou Renata com medo, com pavor real de que ela o fizesse por
pena, que se arrependesse. Não podia acreditar, não podia nada, só sentir.
Renata a pegou pela mão e a levou ao quarto, um pouco
assustada, mas decidida.
“Eu também te amo.” - disse - muito.
Andréa acordou com o nascer do sol invadindo a janela aberta
do quarto. Levantou-se ainda entorpecida e foi assistir sentada sobre a comôda.
Olhou para a cama e viu Renata, seus cabelos cacheados espalhados pelo
travesseiro, sua pele morena aparecendo em diversos vãos de um lençol
emaranhado. Procurou seus sofrimentos e duvidas e dores. Não encontrou. Sabia
que nada era tão simples, que vergonha, autopiedade, eram o tipo de sujeira que
gruda nos ossos e só sai às custas de muita esfregação dolorosa. Sabia que já
sentia vontade de beber, mas conseguiu optar por não saber. Naquele instante,
ela teve - se outorgou - o direito de vasculhar as cavernas mais sujas e
perigosas dentro de si e não encontrar nada.
E encontrar tudo.
. . .
Alice e Jorge saíram tão felizes que foram comemorar num
restaurante e depois foram para casa. Passaram metade da noite tocando e
cantando e rindo e o restante na cama também cantando, rindo e rolando. Jorge
ainda estava acordado quando o sol nascia na terça. Olhou o céu por um longo
tempo e em seguida Alice, dormindo abraçada a ele, relaxada, sorrindo. Jorge
notou que depois de tanto pensar, havia esquecido completamente Andréa, nem
sabia mais por que havia pensado nela tanto e com tanta força.
Como não havia dormido, resolveu tomar o nascer do sol como
ponto de partida.
Quantos?
Haviam acabado. Comprimiu os lábios e quase fez menção de se
levantar. Sentiu o peso e o calor de Alice em seu peito.
Nenhum.
E todos os desejos do mundo.
domingo, 31 de janeiro de 2016
Uma Pequena Homenagem a David Bowie
Um pouco atrasada para o furor em torno da morte do Camaleão. De qualquer maneira deixo aqui um singelo tributo a um artista que me moveu e inspirou a vida inteira.
Muito obrigado, senhor Bowie.
Muito obrigado, senhor Bowie.
sábado, 30 de janeiro de 2016
Arte Poligonal - Star Wars: O Despertar da Força
Rey, minha musa futura Jedi. Arte poligonal feita no Illustrator.
Depois de horas e horas de triângulos e de viver semanas no limite da tendinite, espero que agrade.
Depois de horas e horas de triângulos e de viver semanas no limite da tendinite, espero que agrade.
quinta-feira, 7 de janeiro de 2016
Pintura Digital - John Boyega
Como toda pessoa decente eu sou um nerd tarado por Star Wars. então aí vai um dos novos heróis do meu universo preferido.
sábado, 23 de maio de 2015
segunda-feira, 13 de abril de 2015
Primeiras experiências com o tal do guache
Todos são guache TGA sobre papel Montval, porque esta bendita técnica é bem mais barata que aquarela pra treinar. Reitero o pedido de desculpas pelas fotos assim-assim.
![]() |
| Jeff Bridges (já fiz quatro em diversas técnicas, nenhum ficou bom de vez) e Djimon Hounsou |
![]() |
| Elizabeth Montgomery e um tiozinho desconhecido de uma fotografia que achei no Pinterest |
![]() |
| O saudoso Robin Williams |
![]() |
| O saudoso Vlad Tepes |
sexta-feira, 27 de março de 2015
Mais nanquins!
Mais alguns nanquins de que gostei (agora acabaram os apresentáveis! o que me força a produzir mais...). Gosto particularmente da floresta e, contra a opinião de amigos, ressinto minha falta de habilidade no urso... opinem!
sexta-feira, 20 de março de 2015
Alguns Nanquins
Tem andado meio difícil manter a concentração por tempo o bastante e escrever um conto que se apresente, então aproveito pra mostrar minhas pinturas. Esses aí são nanquim sobre Canson. Ainda não arranjei um scanner que preste ou um esquema bacana pra tirar fotos dessas joças, mas cansei de fazer disso um obstáculo. Só mantenham em mente que são mais bonitos (menos feios?) em pessoa.
domingo, 22 de fevereiro de 2015
Insustentável
Insustentável
João entrou no bar pisando duro, mãos nos bolsos das calças, camisa para fora delas. O colarinho devia estar desajeitado havia horas e o usual arrumadinho João não parecia se importar.
— Uma cachaça!
Vavá se impressionou, João não era homem de cachaça pelo menos até a quarta, quinta cerveja, quando outro João assumia o controle da cabeça.
— Certeza?
O olhar. Vavá se lembraria por meses, dormiria mal. Tanto peso, tanto desgosto num só olhar. Serviu a Velho Barreiro como quem servia sangue. E com Stanheger!!
João bebeu às sorvidinhas longas, bebia pouco por vez, mas inalava muito do vapor medonho da pinga. Todos no bar olhavam para ele, um jogo de sinuca parara no meio, duas discussões, a TV havia sido desligada.
— Um torresmo!
Vavá hesitou, João estava sempre preocupado com o colesterol.
— Mas... e o coração, o fígado?
Dessa vez não era o olhar que o destruía, mas sim uma certa pressão nos lábios. Tanto ressentimento! Nem o divórcio, nem sua mãe cheia de rancor por ter largado a faculdade décadas atrás, não sentira tanto desgosto nunca! Serviu o torresmo num papel grosso, que automaticamente se tornou transparente. João mordeu com mandíbulas que podiam cortar aço. Aquele homem que normalmente estaria elogiando as fotos dos filhos de alguém mais bêbado, que tinha dó de ganhar dos mais ferrados na sinuca apostada. Aquele homem que já dividira o prêmio do bicho com os amigos!
— Muito seco...
Todos esperaram, ninguém ousara se mover.
— Passa no óleo Liza pra mim, Vavá...
Olhos se arregalaram pelo bar. O João! No Lisa! Ninguém acreditava. Vavá já não ousava contrariar, mas se contorcia por dentro, não entendendo o ocorrido. Pegou a lata de óleo, trêmulo, despejou um bocado numa bandejinha vazia da estufa. Sentiu de longe o cheiro da gordura.
Todos observavam, alguns levantaram devagar das mesas e se puseram a olhar com mais atenção. Um no fundo fazia um sinal da cruz, lentamente, para que João não percebesse. João pegou o torresmo, descartara o papel, esfregou por todo o decorrer da bandeja. Enquanto sua mão subia, duas gotas de óleo caíram no balcão, fazendo tremer o chão do bar do Vavá. O torresmo alcançou a altura dos lábios. Paulão quis gritar, mas um outro o impediu por medo. João mordeu e mastigou devagar, beiços brilhando, óleo escorrendo pelo canto da boca. Virou a cachaça de um gole só.
Ele se levantou, todos se encolheram nas cadeiras. Foi até perto da mesa de sinuca, pegou um taco, ajeitou as bolas no veludo verde. O olhar destruidor foi quem convocou um pobre coitado para o jogo. João esfregou o giz leeeentamente, não se sabe se saboreava cada movimento ou se amaldiçoava cada milissegundo do universo. O outro engolia em seco como se fosse jogar na encruzilhada pela própria alma contra o diabo. E nem sabia o que ganharia se vencesse! Num “plá!” vigoroso João estourou as bolas. Encaçapou duas.
Todos olharam ao mesmo tempo, enquanto João continuava debruçado sobre a mesa de sinuca, como um soldado insano que admirasse a fumacinha saindo da ponta do rifle. O adversário sentia as mãos suarem, tremerem.
João era, pasmem, um sujeito baixinho, todo arrumadinho, usava óculos e era um príncipe entre os homens. Mal se reconhecia João naquela pilha de terror que jogava sinuca com hálito de óleo, pinga e desgraça. Uma parte de todo mundo ali pensava “ah! É só o João! Tome tento!”. Mas essa parte ficava quieta quando o homem dava seu olhar de morte para todos de vez em quando. Em minutos, o jogo de sinuca já havia virado massacre. Mané, o adversário, suava nas palmas, na testa e na alma. “João vai me matar!”
Depois de vencida a partida, João deixou o taco de lado e foi para o fundo do bar, onde uma Jukebox mais velha que Oscar Niemeyer se encontrava encostada desde antes da puberdade de Noé. João fuçou atrás dela e encontrou o fio da tomada. Ninguém ousou se mexer enquanto ele ligava a dita cuja. Fuçou por uns instantes, aprendeu a mexer na máquina e colocou Chico Buarque para tocar. Vai trabalhar, vagabundo!
Ele olhou pela sala em busca de alguma reclamação. Nada. Ouviu a música inteira encostado na máquina, olhando para lugar nenhum com seus olhos de morte certa. Quando a canção terminou, puxou o fio da tomada com força, olhou de novo para o pessoal.
— Casada.
Ninguém ouviu direito. Todos se levantaram um pouco e penderam na direção dele para entender melhor.
— Casada!!! É casada!!! Porra!!!
Ninguém tinha coragem de retrucar. João era puro descontentamento, pura raiva na figura de um baixinho vestido de social. Foi o Mané quem levantou a mão devagar para chamar a atenção e falou, ombros encolhidos, taco de sinuca ainda na mão.
— Você também, né, João?
João o encarou com o olhar mais pasmo que se podia imaginar naquela noite. Dez anos de casamento pareceram uma novidade tremenda por um instante. Olhou para o Vavá detrás do balcão com um olhar de ódio que podia bem dar gastrite em alguém.
— Outra cachaça!!!
quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015
Larvas na repartição
Larvas na repartição
- Morro de medo do arquivo...
Roberta
espalhava uma pilha de papéis de utilidade duvidosa pela mesa em que um
computador notavelmente obsoleto repousava com todo o garbo de um monolito
antigo. Janaína observou o estabano da colega por alguns segundos com olhos de
“saco cheio”. Suspirou.
- Por que, Roberta?
A outra
arregalou os olhos azuis e mostrou os dentes numa expressão de “asco levemente
enlouquecido” (ou talvez loucura levemente enojante). Janaína se inclinou de
leve para trás, por precaução.
- Tem muitas larvas...
O
arquivo em questão era velho, úmido, tremendamente mal-cuidado, povoado de
baratas, ratos e funcionários descontentes, desonestos e comilões. A comida se
materializava constantemente. Não importava quantas vezes passasse andando,
alguém estaria com um petisco novo nas mãos. Janaína já havia visto uma
senhorinha aparecer com um lanche de metro onde minutos antes havia apenas uma
bala de café. O prédio e seus habitantes eram o estereótipo do funcionalismo
público, o arquivo era seu coração demente e empoeirado. Era fácil para ela
imaginar larvas lá. Embora não soubesse delas com os números narrados.
- Deve ter
mesmo, Rô. Com tanta gente comendo e sem limpeza, deve dar mil tipos de bichos.
Roberta a olhou
com uma expressão grave, os olhos ainda arregalados:
- Não esse tipo
de larva... larvas espirituais.
Janaína
deu um suspiro longo e cansado sem quebrar o contato visual, sua mente oscilou
por várias medidas cabíveis – homicídio? Pegar o ônibus para casa? Deitar no
meio da rua e esperar por dias melhores? Um outro, que trabalhava num
computador próximo, fez seu melhor para sufocar uma risada e acabou fazendo o
som de um porco contrariado. Roberta olhava fixamente. Janaína moveu os olhos
lentamente para a tela do computador, como se movimentos bruscos pudessem fazer
aquela conversa explodir como uma granada de loucura. Trabalhou em ritmo
dobrado para esquecer o que ouvira.
XXX
Como era de se
esperar a mente coletiva da repartição logo tomou nota da história,
principalmente por intermédio do “risada de porco” da cena anterior. Todos riam
às escondidas ao perceber – ou re-afirmar – a loucura pitoresca de Roberta.
O
curioso da repartição era sua similaridade com filmes pós-apocalípticos, ou de
cadeia: a situação era grotesca, mas o ambiente sempre estava forrado de quem
abraçasse as trevas e se divertisse. Estes - como o Soares - se tornavam
gárgulas risonhas que lembravam os mais novos ou simplesmente mais lúcidos de
seu futuro doentio. O Soares rodou o setor soltando uma risada meio lesada e
repetindo a mesma piada para cada nova cara que aparecia: “é preciso fazer uma
dedetização de almas!”. Os funcionários mais novos pareciam ter seus ânimos
drenados pela risada nefasta. A barriga e a barba de um mocinho cresceram
diante dos olhos de Janaína e um palito brotou do canto de sua boca. Estava
condenado. Era funcionário público de vez.
Havia, claro
todo tipo de ser mítico na repartição e não apenas gárgulas sádicas. Havia quem
desacelerasse comendo e resmungando até completa transformação em algo próximo
do Líquen. Mesmo com poucas oportunidades de lucro, o lugar tinha sua dose de
lobos famintos e raposas ardilosas. O Dilson, por exemplo era um exemplo
supremo de um caso comum: os sábios. Talvez uma imagem boa fosse uma coruja
viciada em alucinógenos pesados.
O Dilson sabia
tudo. Havia estudado biologia em uma faculdade inverificável em ano incerto,
mas isso era irrelevante, uma vez que discursava sobre todas as áreas de uma só
vez. Debatia (sozinho, obviamente) a qualidade dos protetores solares
brasileiros e no mesmo minuto criticava a falta de padronização das cachaças.
Jurava que ia plantar cana em um terreno e criar um padrão ele mesmo! Janaína
só conseguia imaginar o homenzarrão de quase dois metros e mais de 100 kilos de
esquisitice no meio das canas, bêbado de uma Maria-louca altamente nociva.
Certa feita um
grupo conversava e o Dilson chegou abaladíssimo, olhos fixos e raivosos,
resmungando sozinho. Os mais calejados se calaram e mal se moviam, para que o
bicho estranho passasse sem percebê-los, mas algum novato desgraçado acabou
soltando um “está tudo bem, Dilson?”.
- Arrombaram meu
armário!
Silêncio. O
novato maldito dava andamento aos fatos.
- Nossa! Roubaram alguma coisa?
- Reviraram
tudo! Destruíram muita coisa... Mijaram dentro do armário! ... mas só roubaram
uma coisa...
As expressões do
grupo iam da aflição à força extrema de quem segura uma gargalhada alta.
- Levaram o
caderno em que eu anotei minha teoria!
A essa altura do
campeonato todos queriam saber o fim da história, mas esperavam que o novato
ligasse os trechos da conversa. Por polidez.
-Teoria?
Dilson pareceu
inflar por um segundo com sua estranha fisionomia de gordo nas costas e com
pernas finas. Ergueu um dedo como se acusasse o novato de alguma coisa (sanidade
talvez).
- Minha teoria
de nanotecnologia! Tão brilhante e delicada que é capaz de reconstituir a asa
de uma borboleta!
O rosto do
novato pareceu repuxar para baixo sob o peso da coisa misteriosa que despencou
em seu estômago. Olhou para o restante do grupo, o tempo todo mudos, como se
pedisse ajuda. Todos acenaram lentamente com a cabeça com uma expressão de “sabemos...sabemos....”. Desta vez o novato calou, mas era tarde
demais.
-Mas eu sei quem
roubou!
Silêncio.
-Foi a KGB!!!
O novato piscou
de modo mais demorado do que o normal, imaginando se ninguém perceberia agentes
secretos russos mijando num armário no meio de um setor que funcionava 24
horas. Isso é claro dependia ainda de uma agência de espionagem extinta voltar
a existir. Não era o maior feito de Dilson, que - descobriria depois - dizia receber faxes da NASA e da Pfizer
pedindo conselhos. Talvez mais absurdo que esses gigantes pedindo conselhos
para um anônimo dos cafundós seria alguém ainda usar fax. Mas, claro, o setor
ainda usava.
- Eu vi um
cientista russo anunciar minha descoberta! Eles me roubaram!
Desta vez o novato
já fazia parte da formação de moais com os mais velhos e manteve o silêncio e a
cara de bunda. Isso não impediu o Dilson de discursar por um tempo, resmungar
por mais um outro e finalmente sair andando, para longe da nova Ilha de Páscoa
e atrás de outra platéia.
Um ser bastante
único naquela fauna era o Antônio. Sempre sorridente, sempre agradável, sempre
com mais ou menos as mesmas frases.
- Vai melhorar! Você
vai ver!
Ocorriam
variações esporádicas.
- Vai ter
McDonalds aqui dentro! Computador para todo mundo trabalhar!
O que não mudava
eram as gargalhadas sarcásticas de quem sabia perfeitamente a profundeza da
fossa em que se encontrava. Havia quem achasse o Antônio meio doido como a
média da população do prédio. Certo dia o novato encontrou ele no corredor,
como de costume, no espaço entre setores.
-Se não é o meu
amigo! Como é que os caras estão lá? Fala que vai melhorar tudo! Informatizar
tudo!
O novato então,
com seu dom para “não sacar”, procedeu a explicar todo o martírio de descaso
que o setor e o prédio inteiro sofriam. Reclamou de falta de funcionários, de
corrupção de chefes, de equipamento defeituoso, falta de ventiladores.
O Antônio olhou
para ele meio espantado e, por sua vez, deu um enorme, lúcido e deprimente
discurso sobre a inviabilidade daquele lugar devido à falta de interesse. Desde
então o novato se limitava a rir das piadas do Antônio e tapava o buraco que o
discurso daquele dia deixara em seu peito com chocolate branco.
Mas
retornemos à população de gárgulas. Uma notória era o Felipe. Sondando o
ambiente como um predador, o Felipe se deliciava em buscar quaisquer falhas e
tropeços, qualquer coisa a ser apontada para montar em cima e cavalgar até o
limite da paciência. Tinha a sofisticação e a inteligência de uma criança de 10
anos, mas sua insistência o fazia tremendamente irritante de qualquer maneira.
Seu faro não perdeu a história das larvas e no dia seguinte o resultado de seu
empenho estava espalhado pelo setor.
Era de se
admirar e de se enojar ao mesmo tempo o esforço dedicado ao constrangimento e
incômodo alheios. Pelas paredes, pelas mesas, pelas mãos de todo mundo se
espalhava uma folha impressa. Continha
uma reportagem - claramente forjada - que tratava da existência das larvas
espirituais. Tendo a NASA (e não a KGB) descoberto sua existência – pois se
tornavam visíveis sob radiação gama – investigaram posteriormente e descobriram
que repartições públicas e, especialmente, arquivos antigos, atraíam almas
penadas que involuíam ao estado de larva.
Quando o papel
alcançou as mãos de Roberta todos já esperaram ver um escândalo de briga, uma
ofensa generalizada, uma transferência de setor. O resultado efetivo foi que
Roberta nunca mais entrou no arquivo com medo de ser larvificada. No furor dos
comentários e piadas um dos mais velhos chegou se divertindo com o papel para o
Dilson, que avaliou gravemente, fez uma cara indignada e disse, chacoalhando o
papel:
- Mas isso é um
absurdo!!!
Todos se
entreolharam achando graça na seriedade do colega e concordaram: sim era um
absurdo. Já iam começar uma nova sessão de besteiras e impropérios quando o
Dilson levantou de uma vez o corpo e a voz:
-Larvas
espirituais são vistas com radiação beta e não gama!!!
Naquele dia
ninguém conseguiu lidar muito bem com essa informação. Haviam cumprido a cota
de insanidade e aquilo já estava ficando perigoso, expondo camadas muito
profundas. Desconversaram, se afastaram e só os mais bonzinhos (e coitados) e
os mais loucos ficaram para ouvir as especificidades da radiação beta sobre a
alma. Os papéis se empilharam e desempilharam – não necessariamente no mesmo
ritmo – e as pessoas se chatearam, comeram e enrolaram. Seguia a vida, como
podia, no setor.
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