segunda-feira, 13 de abril de 2015

Primeiras experiências com o tal do guache

Todos são guache TGA sobre papel Montval, porque esta bendita técnica é bem mais barata que aquarela pra treinar. Reitero o pedido de desculpas pelas fotos assim-assim.


Jeff Bridges (já fiz quatro em diversas técnicas, nenhum ficou bom de vez) e Djimon Hounsou

Elizabeth Montgomery e um tiozinho desconhecido de uma fotografia que achei no Pinterest

O saudoso Robin Williams

O saudoso Vlad Tepes

sexta-feira, 27 de março de 2015

Mais nanquins!


Mais alguns nanquins de que gostei (agora acabaram os apresentáveis! o que me força a produzir mais...). Gosto particularmente da floresta e, contra a opinião de amigos, ressinto minha falta de habilidade no urso... opinem!





sexta-feira, 20 de março de 2015

Alguns Nanquins

Tem andado meio difícil manter a concentração por tempo o bastante e escrever um conto que se apresente, então aproveito pra mostrar minhas pinturas. Esses aí são nanquim sobre Canson. Ainda não arranjei um scanner que preste ou um esquema bacana pra tirar fotos dessas joças, mas cansei de fazer disso um obstáculo. Só mantenham em mente que são mais bonitos (menos feios?) em pessoa.







domingo, 22 de fevereiro de 2015

Insustentável


Insustentável

João entrou no bar pisando duro, mãos nos bolsos das calças, camisa para fora delas. O colarinho devia estar desajeitado havia horas e o usual arrumadinho João não parecia se importar.

— Uma cachaça!

Vavá se impressionou, João não era homem de cachaça pelo menos até a quarta, quinta cerveja, quando outro João assumia o controle da cabeça.

— Certeza?

O olhar. Vavá se lembraria por meses, dormiria mal. Tanto peso, tanto desgosto num só olhar. Serviu a Velho Barreiro como quem servia sangue. E com Stanheger!!

João bebeu às sorvidinhas longas, bebia pouco por vez, mas inalava muito do vapor medonho da pinga. Todos no bar olhavam para ele, um jogo de sinuca parara no meio, duas discussões, a TV havia sido desligada.

— Um torresmo!

Vavá hesitou, João estava sempre preocupado com o colesterol.

— Mas... e o coração, o fígado?

Dessa vez não era o olhar que o destruía, mas sim uma certa pressão nos lábios. Tanto ressentimento! Nem o divórcio, nem sua mãe cheia de rancor por ter largado a faculdade décadas atrás, não sentira tanto desgosto nunca! Serviu o torresmo num papel grosso, que automaticamente se tornou transparente. João mordeu com mandíbulas que podiam cortar aço. Aquele homem que normalmente estaria elogiando as fotos dos filhos de alguém mais bêbado, que tinha dó de ganhar dos mais ferrados na sinuca apostada. Aquele homem que já dividira o prêmio do bicho com os amigos!

— Muito seco...

Todos esperaram, ninguém ousara se mover.

— Passa no óleo Liza pra mim, Vavá...

Olhos se arregalaram pelo bar. O João! No Lisa! Ninguém acreditava. Vavá já não ousava contrariar, mas se contorcia por dentro, não entendendo o ocorrido. Pegou a lata de óleo, trêmulo, despejou um bocado numa bandejinha vazia da estufa. Sentiu de longe o cheiro da gordura.

Todos observavam, alguns levantaram devagar das mesas e se puseram a olhar com mais atenção. Um no fundo fazia um sinal da cruz, lentamente, para que João não percebesse. João pegou o torresmo, descartara o papel, esfregou por todo o decorrer da bandeja. Enquanto sua mão subia, duas gotas de óleo caíram no balcão, fazendo tremer o chão do bar do Vavá. O torresmo alcançou a altura dos lábios. Paulão quis gritar, mas um outro o impediu por medo. João mordeu e mastigou devagar, beiços brilhando, óleo escorrendo pelo canto da boca. Virou a cachaça de um gole só.

Ele se levantou, todos se encolheram nas cadeiras. Foi até perto da mesa de sinuca, pegou um taco, ajeitou as bolas no veludo verde. O olhar destruidor foi quem convocou um pobre coitado para o jogo. João esfregou o giz leeeentamente, não se sabe se saboreava cada movimento ou se amaldiçoava cada milissegundo do universo. O outro engolia em seco como se fosse jogar na encruzilhada pela própria alma contra o diabo. E nem sabia o que ganharia se vencesse! Num “plá!” vigoroso João estourou as bolas. Encaçapou duas.

Todos olharam ao mesmo tempo, enquanto João continuava debruçado sobre a mesa de sinuca, como um soldado insano que admirasse a fumacinha saindo da ponta do rifle. O adversário sentia as mãos suarem, tremerem.

João era, pasmem, um sujeito baixinho, todo arrumadinho, usava óculos e era um príncipe entre os homens. Mal se reconhecia João naquela pilha de terror que jogava sinuca com hálito de óleo, pinga e desgraça. Uma parte de todo mundo ali pensava “ah! É só o João! Tome tento!”. Mas essa parte ficava quieta quando o homem dava seu olhar de morte para todos de vez em quando. Em minutos, o jogo de sinuca já havia virado massacre. Mané, o adversário, suava nas palmas, na testa e na alma. “João vai me matar!”

Depois de vencida a partida, João deixou o taco de lado e foi para o fundo do bar, onde uma Jukebox mais velha que Oscar Niemeyer se encontrava encostada desde antes da puberdade de Noé. João fuçou atrás dela e encontrou o fio da tomada. Ninguém ousou se mexer enquanto ele ligava a dita cuja. Fuçou por uns instantes, aprendeu a mexer na máquina e colocou Chico Buarque para tocar. Vai trabalhar, vagabundo!

Ele olhou pela sala em busca de alguma reclamação. Nada. Ouviu a música inteira encostado na máquina, olhando para lugar nenhum com seus olhos de morte certa. Quando a canção terminou, puxou o fio da tomada com força, olhou de novo para o pessoal.

— Casada.

Ninguém ouviu direito. Todos se levantaram um pouco e penderam na direção dele para entender melhor.

— Casada!!! É casada!!! Porra!!!

Ninguém tinha coragem de retrucar. João era puro descontentamento, pura raiva na figura de um baixinho vestido de social. Foi o Mané quem levantou a mão devagar para chamar a atenção e falou, ombros encolhidos, taco de sinuca ainda na mão.

— Você também, né, João?

João o encarou com o olhar mais pasmo que se podia imaginar naquela noite. Dez anos de casamento pareceram uma novidade tremenda por um instante. Olhou para o Vavá detrás do balcão com um olhar de ódio que podia bem dar gastrite em alguém.

— Outra cachaça!!!

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Larvas na repartição

Larvas na repartição

 - Morro de medo do arquivo...
Roberta espalhava uma pilha de papéis de utilidade duvidosa pela mesa em que um computador notavelmente obsoleto repousava com todo o garbo de um monolito antigo. Janaína observou o estabano da colega por alguns segundos com olhos de “saco cheio”. Suspirou.
 - Por que, Roberta?
A outra arregalou os olhos azuis e mostrou os dentes numa expressão de “asco levemente enlouquecido” (ou talvez loucura levemente enojante). Janaína se inclinou de leve para trás, por precaução.
 - Tem muitas larvas...
                O arquivo em questão era velho, úmido, tremendamente mal-cuidado, povoado de baratas, ratos e funcionários descontentes, desonestos e comilões. A comida se materializava constantemente. Não importava quantas vezes passasse andando, alguém estaria com um petisco novo nas mãos. Janaína já havia visto uma senhorinha aparecer com um lanche de metro onde minutos antes havia apenas uma bala de café. O prédio e seus habitantes eram o estereótipo do funcionalismo público, o arquivo era seu coração demente e empoeirado. Era fácil para ela imaginar larvas lá. Embora não soubesse delas com os números narrados.
- Deve ter mesmo, Rô. Com tanta gente comendo e sem limpeza, deve dar mil tipos de bichos.
Roberta a olhou com uma expressão grave, os olhos ainda arregalados:
- Não esse tipo de larva... larvas espirituais.
                Janaína deu um suspiro longo e cansado sem quebrar o contato visual, sua mente oscilou por várias medidas cabíveis – homicídio? Pegar o ônibus para casa? Deitar no meio da rua e esperar por dias melhores? Um outro, que trabalhava num computador próximo, fez seu melhor para sufocar uma risada e acabou fazendo o som de um porco contrariado. Roberta olhava fixamente. Janaína moveu os olhos lentamente para a tela do computador, como se movimentos bruscos pudessem fazer aquela conversa explodir como uma granada de loucura. Trabalhou em ritmo dobrado para esquecer o que ouvira.

XXX

Como era de se esperar a mente coletiva da repartição logo tomou nota da história, principalmente por intermédio do “risada de porco” da cena anterior. Todos riam às escondidas ao perceber – ou re-afirmar – a loucura pitoresca de Roberta.
                O curioso da repartição era sua similaridade com filmes pós-apocalípticos, ou de cadeia: a situação era grotesca, mas o ambiente sempre estava forrado de quem abraçasse as trevas e se divertisse. Estes - como o Soares - se tornavam gárgulas risonhas que lembravam os mais novos ou simplesmente mais lúcidos de seu futuro doentio. O Soares rodou o setor soltando uma risada meio lesada e repetindo a mesma piada para cada nova cara que aparecia: “é preciso fazer uma dedetização de almas!”. Os funcionários mais novos pareciam ter seus ânimos drenados pela risada nefasta. A barriga e a barba de um mocinho cresceram diante dos olhos de Janaína e um palito brotou do canto de sua boca. Estava condenado. Era funcionário público de vez.
Havia, claro todo tipo de ser mítico na repartição e não apenas gárgulas sádicas. Havia quem desacelerasse comendo e resmungando até completa transformação em algo próximo do Líquen. Mesmo com poucas oportunidades de lucro, o lugar tinha sua dose de lobos famintos e raposas ardilosas. O Dilson, por exemplo era um exemplo supremo de um caso comum: os sábios. Talvez uma imagem boa fosse uma coruja viciada em alucinógenos pesados.
O Dilson sabia tudo. Havia estudado biologia em uma faculdade inverificável em ano incerto, mas isso era irrelevante, uma vez que discursava sobre todas as áreas de uma só vez. Debatia (sozinho, obviamente) a qualidade dos protetores solares brasileiros e no mesmo minuto criticava a falta de padronização das cachaças. Jurava que ia plantar cana em um terreno e criar um padrão ele mesmo! Janaína só conseguia imaginar o homenzarrão de quase dois metros e mais de 100 kilos de esquisitice no meio das canas, bêbado de uma Maria-louca altamente nociva.
Certa feita um grupo conversava e o Dilson chegou abaladíssimo, olhos fixos e raivosos, resmungando sozinho. Os mais calejados se calaram e mal se moviam, para que o bicho estranho passasse sem percebê-los, mas algum novato desgraçado acabou soltando um “está tudo bem, Dilson?”.
- Arrombaram meu armário!
Silêncio. O novato maldito dava andamento aos fatos.
 - Nossa! Roubaram alguma coisa?
- Reviraram tudo! Destruíram muita coisa... Mijaram dentro do armário! ... mas só roubaram uma coisa...
As expressões do grupo iam da aflição à força extrema de quem segura uma gargalhada alta.
- Levaram o caderno em que eu anotei minha teoria!
A essa altura do campeonato todos queriam saber o fim da história, mas esperavam que o novato ligasse os trechos da conversa. Por polidez.
-Teoria?
Dilson pareceu inflar por um segundo com sua estranha fisionomia de gordo nas costas e com pernas finas. Ergueu um dedo como se acusasse o novato de alguma coisa (sanidade talvez).
- Minha teoria de nanotecnologia! Tão brilhante e delicada que é capaz de reconstituir a asa de uma borboleta!
O rosto do novato pareceu repuxar para baixo sob o peso da coisa misteriosa que despencou em seu estômago. Olhou para o restante do grupo, o tempo todo mudos, como se pedisse ajuda. Todos acenaram lentamente com a cabeça com uma expressão de “sabemos...sabemos....”.  Desta vez o novato calou, mas era tarde demais.
-Mas eu sei quem roubou!
Silêncio.
-Foi a KGB!!!
O novato piscou de modo mais demorado do que o normal, imaginando se ninguém perceberia agentes secretos russos mijando num armário no meio de um setor que funcionava 24 horas. Isso é claro dependia ainda de uma agência de espionagem extinta voltar a existir. Não era o maior feito de Dilson, que - descobriria depois -  dizia receber faxes da NASA e da Pfizer pedindo conselhos. Talvez mais absurdo que esses gigantes pedindo conselhos para um anônimo dos cafundós seria alguém ainda usar fax. Mas, claro, o setor ainda usava.
- Eu vi um cientista russo anunciar minha descoberta! Eles me roubaram!
Desta vez o novato já fazia parte da formação de moais com os mais velhos e manteve o silêncio e a cara de bunda. Isso não impediu o Dilson de discursar por um tempo, resmungar por mais um outro e finalmente sair andando, para longe da nova Ilha de Páscoa e atrás de outra platéia.
Um ser bastante único naquela fauna era o Antônio. Sempre sorridente, sempre agradável, sempre com mais ou menos as mesmas frases.
- Vai melhorar! Você vai ver!
Ocorriam variações esporádicas.
- Vai ter McDonalds aqui dentro! Computador para todo mundo trabalhar!
O que não mudava eram as gargalhadas sarcásticas de quem sabia perfeitamente a profundeza da fossa em que se encontrava. Havia quem achasse o Antônio meio doido como a média da população do prédio. Certo dia o novato encontrou ele no corredor, como de costume, no espaço entre setores.
-Se não é o meu amigo! Como é que os caras estão lá? Fala que vai melhorar tudo! Informatizar tudo!
O novato então, com seu dom para “não sacar”, procedeu a explicar todo o martírio de descaso que o setor e o prédio inteiro sofriam. Reclamou de falta de funcionários, de corrupção de chefes, de equipamento defeituoso, falta de ventiladores.
O Antônio olhou para ele meio espantado e, por sua vez, deu um enorme, lúcido e deprimente discurso sobre a inviabilidade daquele lugar devido à falta de interesse. Desde então o novato se limitava a rir das piadas do Antônio e tapava o buraco que o discurso daquele dia deixara em seu peito com chocolate branco.
                Mas retornemos à população de gárgulas. Uma notória era o Felipe. Sondando o ambiente como um predador, o Felipe se deliciava em buscar quaisquer falhas e tropeços, qualquer coisa a ser apontada para montar em cima e cavalgar até o limite da paciência. Tinha a sofisticação e a inteligência de uma criança de 10 anos, mas sua insistência o fazia tremendamente irritante de qualquer maneira. Seu faro não perdeu a história das larvas e no dia seguinte o resultado de seu empenho estava espalhado pelo setor.
Era de se admirar e de se enojar ao mesmo tempo o esforço dedicado ao constrangimento e incômodo alheios. Pelas paredes, pelas mesas, pelas mãos de todo mundo se espalhava uma folha impressa.  Continha uma reportagem - claramente forjada - que tratava da existência das larvas espirituais. Tendo a NASA (e não a KGB) descoberto sua existência – pois se tornavam visíveis sob radiação gama – investigaram posteriormente e descobriram que repartições públicas e, especialmente, arquivos antigos, atraíam almas penadas que involuíam ao estado de larva.
Quando o papel alcançou as mãos de Roberta todos já esperaram ver um escândalo de briga, uma ofensa generalizada, uma transferência de setor. O resultado efetivo foi que Roberta nunca mais entrou no arquivo com medo de ser larvificada. No furor dos comentários e piadas um dos mais velhos chegou se divertindo com o papel para o Dilson, que avaliou gravemente, fez uma cara indignada e disse, chacoalhando o papel:
- Mas isso é um absurdo!!!
Todos se entreolharam achando graça na seriedade do colega e concordaram: sim era um absurdo. Já iam começar uma nova sessão de besteiras e impropérios quando o Dilson levantou de uma vez o corpo e a voz:
-Larvas espirituais são vistas com radiação beta e não gama!!!
Naquele dia ninguém conseguiu lidar muito bem com essa informação. Haviam cumprido a cota de insanidade e aquilo já estava ficando perigoso, expondo camadas muito profundas. Desconversaram, se afastaram e só os mais bonzinhos (e coitados) e os mais loucos ficaram para ouvir as especificidades da radiação beta sobre a alma. Os papéis se empilharam e desempilharam – não necessariamente no mesmo ritmo – e as pessoas se chatearam, comeram e enrolaram. Seguia a vida, como podia, no setor.



Devidas apresentações

Cthulhu!! Yaaaay!


Ahoy!

Venho por meio deste brógue colocar em espaço público contos, desenhos, pinturas, poemas, crônicas, resmungos e pirações do dia-a-dia. Não suponho que vá ser genial, mas espero que pelo menos seja engraçado e minimamente interessante.
Não conte com coerência! Num dia eu estou reclamando do ônibus e pintando floresta emnanquim, no outro estou querendo matar dragão a machadadas e rabiscando com bic.

Considerem-se irrestritamente convidados a visitar e comentar. Suponho que ninguém vá perder a vontade de viver por ler um texto meu.... de novo...